sábado, 18 de janeiro de 2014

José de Anchieta e a biodiversidade

O padre José de Anchieta foi sem dúvida o pai da biodiversidade, o primeiro naturalista da história do Brasil, reconhecido como patrono dos naturalistas brasileiros. Em pleno século XVI, ele defendeu homens que não eram brancos, nem europeus, nem cristãos.

 https://bio-orbis.blogspot.com.br/2014/01/jose-de-anchieta-e-biodiversidade.html
Padre José de Anchieta. Fonte da imagem: EditoraCleofas.

VAMOS CONHECÊ-LO...

Nome: São José de Anchieta.

Nascimento: 19 de março de 1534 em San Cristóbal de La Laguna, Canárias, Espanha.

Morte: 9 de julho de 1597 (63 anos) em Iriritiba, Brasil colonial.

Veneração por: Igreja Católica.

Beatificação: 22 de julho de 1980, Vaticano por João Paulo II.

Canonização: 3 de abril de 2014 por Papa Francisco.

Principal Templo: Catedral de San Cristóbal de La Laguna (nas Ilhas Canárias) e Santuário Nacional de São José de Anchieta (no Brasil).

Padre José de Anchieta  junto aos animais e os nativos do Brasil. Fonte da imagem: SjWeb.
O padre Anchieta nasceu na ilha de Terenife, nas Canárias, em 1534, e morreu em 1597 na aldeia de Reritiba, no Espirito Santo. Hoje a cidade leva o seu nome. Seu pai era basco, de um vilarejo próximo ao de Inácio de Loyola. Sua mãe, de linhagem nobre. Fez seus estudos de teologia e filosofia em Coimbra, em Portugal. Veio ao Brasil, enfermo, com 19 anos, na comitiva de D. Duarte da Costa, segundo governador geral.

No ano de 1554, junto com o padre Manuel de Nóbrega, Anchieta fundou o terceiro colégio do Brasil. No dia 25 de janeiro foi celebrada a primeira missa no colégio. Ele dará origem ao núcleo urbano da atual cidade de São Paulo. Anchieta construiu também um seminário de orientação perto do colégio e deu aulas de castelhano, português, latim, doutrina cristã e língua brasílica.


Aprendeu o idioma tupi com muita facilidade. Escreveu livros em tupi e uma gramática. Serviu de intérprete e terminou como refém dos índios tamoios, aliados dos franceses e em guerra contra os portugueses. Nessa época, Anchieta escreveu nas areias da praia, e memorizou, um extenso poema dedicado à Virgem Maria. Foi no ano de 1567, quando os jesuítas engajaram-se totalmente na expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, orientando e colaborando com o governador Estácio de Sá. Para os índios, Anchieta era médico e sacerdote, cuidava tanto das pessoas doentes ou feridas como de sua espiritualidade.

Foram muitas páginas em suas obras dedicadas à descrição da fauna brasileira. Entre elas, encontra-se uma longa carta dirigida ao padre geral Diolo Laines, e intitulada: Epistola quamplurium rerum naturalium quae S. Vicentii provinciam incolunt sistens descriptionem, ou, em português: "Carta contendo a descrição de numerosas coisas naturais que povoam a província de S. Vicente".


As rerum naturalium eram numerosas e surpreendentes. Muitos dos animais observados por Anchieta não tinham equivalentes na Europa. Como explicá-los, como descrevê-los sem poder compará-los a animais conhecidos? Dois séculos e meio antes de Lineu, Anchieta comportou-se como um pesquisador criterioso. Esse zoólogo pré-lineano observou, mediu, investigou, comparou e só depois descreveu cada animal. O exemplo do tamanduá (Myrmecophaga tridactyla tridactyla, Linnaeus, 1788) ilustra uma das muitas caracterizações circunstanciadas dos animais, realizadas pelo padre Anchieta:


"Há também outro animal de feio aspecto, a que os Índios chamam tamanduá. Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira. As suas cerdas, que são negras entremeiadas de cinzento, são mais rijas e compridas que as do porco, maximé na cauda, que é provida de cerdas compridas, umas dispostas de cima a baixo, outras transversalmente, com as quais não só recebe, como rechaça os golpes das armas;..."

Esse homem curioso e criterioso, capaz de medir o comprimento da parte interna da língua do tamanduá e descrever a espécie com tantos detalhes (como no caso da morfologia da cauda), repete uma frase constante, amplamente aplicada. Certamente, em seu pensamento, ela devia alcançar toda biodiversidade: "não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria".


O primeiro mamífero citado por Anchieta é o iguaraguá, guaraguá ou ainda iauarauá, nomes dados ao peixe-boi marinho pelos indígenas. O Trichechus manatus manatus (Linnaeus, 1758), da família Trichechidae, aparecia na Capitania do Espírito Santo e hoje ainda é encontrado ao sul da foz do rio Goiana, em Pernambuco. 

Na "Relação do Piloto Anônimo", um dos três documentos conhecidos escritos por participantes da armada de Pedro Álvares Cabral, existe a primeira descrição aparente do peixe-boi, ausente na carta de Pero Vaz de Caminha. É a única descrição de um animal brasileiro nesse documento:

"...estes homens têm redes e são grandes pescadores e pescam peixes de muitas espécies, entre os quais vimos um peixe que apanharam, que seria grande como uma pipa e mais comprido e redondo, e tinha a cabeça como um porco e os olhos pequenos e não tinha dentes e tinha orelhas compridas do tamanho dum braço, e da largura do meio braço..."


Anchieta identifica esse animal aquático com um mamífero, pois a fêmea tem mamas nos peitos, onde os filhotes sugam ao nascer ("habet ad pectus, sub quibus et ubera ad quae proprios foetus nutrit"). Mesmo assim, seguindo a nomenclatura de seu tempo, Anchieta o considerava um peixe, por ser aquático, por ser um nadador.

Outro estranho mamífero para os olhos europeus, descrito por Anchieta, foi a anta (Tapirus americanus, Briss).

"É uma fera semelhante à mula, um pouco mais curta de pernas; tem os pés divididos em três partes; a parte superior do beiço é muito proeminente: de cor entre a do camelo e a do veado, tentado para o preto..."

Se para descrever a anta Anchieta  ainda podia recorrer à comparação com alguns animais europeus ou conhecidos, no caso do tatu (Dasipus novemcinctus) ou o bicho preguiça era impossível. As singularidades do Bradypus tridactylus brasiliensis (Blainville, 1839) levaram Anchieta a evocar, mais uma vez, a obra da natureza ("o dotou a natureza"), com seu potencial de gerar seres e organismos inimagináveis. Em todos esses casos de animais exóticos, Anchieta nunca evoca diretamente como causa a de um capricho qualquer do Deus criador.


O padre José de Anchieta lançou os fundamentos da história natural brasileira. Ele descreveu 21 espécies de mamíferos, cerca de 20 aves, uma dezena de ofídios, 13 insetos, 11 aracnídeos e crustáceos etc. Ele foi o primeiro autor a relatar o fenômeno da piracema, o movimento migratório de peixes no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução.

Se o padre Anchieta destacou-se entre os religiosos no tocante à fauna brasileira, nenhum leigo no século XVI pode comparar-se, pelo trabalho científico, ao cronista Gabriel Soares de Souza. Científico porque ele exerceu a ciência de seu tempo e o fez de forma equilibrada, não se fixou nas curiosidades e exuberâncias. Buscou ser sistemático e objetivo. E é mais original do que Plínio, em seu saber enciclopédico. Esse empresário do açúcar, observador atento, foi quem mais descreveu e comentou as espécies da fauna brasileira no século XVI: mais de 350 espécies animais, sempre em relatos zoológicos extensos e circunstanciados.

Fonte: O descobrimento da Biodiversidade, a Ecologia de índios, jesuítas e leigos no século XVI. Evaristo Eduardo de Miranda. Editora Loyola.


INCRÍVEL HISTÓRIA DE UM NATURALISTA AMANTE DA NATUREZA. MAS NÃO PARE POR AQUI ABAIXO TEM MUITO MAIS PRA VOCÊS (É SÓ CLICAR NAS IMAGENS OU NOS TÍTULOS PARA ACESSAR OS LINKS):

Biodiversidade e a teoria da Geração Espontânea

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